segunda-feira, 12 de maio de 2014

"Alimentação não é questão de caridade ou de assistência social", afirma dom Morelli



Dom Mauro Morelli esteve em São Leopoldo para participar de debate sobre nutrição. Reconhecido por sua luta contra a fome e a miséria, o religioso avalia que a batalha contra esses problemas passa por uma "mudança no conceito de desenvolvimento". A entrevista é de Marcelo Monteiro, publicada pelo jornal Zero Hora, 07-05-2014.


O planeta produz o suficiente para alimentar todos? Por que 1 bilhão ainda passa fome?

Em alguns lugares, há problema de produção, mas, em muitos outros, o problema está no acesso. Esse é um desafio muito grande. O que trabalhamos é o direito como fundamento. Não é porque tenho pena de criança com fome. Tenho vergonha. A criança privada do alimento fica mirrada, não se desenvolve, a humanidade dela foi negada e a minha foi atingida. Você não pode ser movido pela compaixão. Você não deve tratar a alimentação como questão de caridade ou de assistência social. Ela é um direito inalienável do ser humano.

Como erradicar a fome?

Com uma revisão profunda do modelo de desenvolvimento. Sem isso, estamos trabalhando com um conceito de desenvolvimento que degrada o ambiente e acumula riqueza. Há uma cultura do desperdício muito grande. Tudo é descartável. Com esse tipo de lógica, não temos como equacionar o problema da pobreza nem da fome. Temos de mudar nossos paradigmas, nossos conceitos de desenvolvimento, investindo em questões fundamentais como educação, alimentação e nutrição.

Por que o Brasil é um dos maiores produtores mundiais de grãos e, ainda assim, milhões não têm o que comer?

Porque se produz para o mercado externo, para a criação de animais fora daqui. Temos um mercado interno fabuloso. Se garantíssemos a esse mercado o acesso a alimento saudável e adequado, nosso povo seria mais inteligente. Uma criança fica atrofiada se não for devidamente gestada, alimentada, desenvolvida. Democracia não se faz com famintos. O que é a democracia? É participação. Em torno da mesa, vejo a expressão mais bonita da democracia. Você vê um pacto social de um grupo, uma família, em que se coloca sobre a mesa tudo em comum, e todos, igualmente, têm direito àquilo. Você cresce nas relações de humanidade em torno de uma mesa.

Como o senhor avalia a qualidade do alimento que se consome hoje no Brasil?

Não sei quem tem certeza se o que come dá vida ou traz morte. Você come um tomate e não sabe se é tomate ou se é veneno. Não basta alimento. É preciso alimento e nutrição. O alimento tem de ter aquela composição de sais minerais e outros nutrientes que são fundamentais para a minha saúde. Muita gente tem comida hoje. Há medidas assistenciais que possibilitam adquirir comida, mas cresce a obesidade. Isso é grave. As pessoas comem aquilo que engorda, mas não nutre.

Quais as consequências da concentração na produção de determinados produtos?

Você extingue a riqueza que a natureza dá, porque, para ganhar mais, concentra em poucos produtos. Enquanto o alimento for convertido em mercadoria e moeda, vai haver miséria e fome.

O que o senhor acha do uso massivo de agrotóxicos?

Não são necessários. Várias correntes trabalham com permacultura (agricultura sustentável) e produção orgânica. Existe conhecimento que nos permite produzir alimentos saudáveis sem esses produtos. Agora, se você continua na base da monocultura, é impossível afastar os insetos.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Dom Mauro recebe homenagem “Personalidade Cidadania 2014”





O presidente do CONSEA-MG, Dom Mauro Morelli, será agraciado com o título honorífico de Personalidade Cidadania 2014. A solenidade de entregado título será realizada no dia 8 de maio, na Associação Comercial do Rio de Janeiro. 

O título Personalidade Cidadania 2014 é concedido às personalidades que contribuem efetivamente para o desenvolvimento humano e para o avanço da cidadania no país nas áreas de Educação, Trabalho e Promoção Social. 

A iniciativa da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), da Academia Brasileira de Filosofia (ABF) e da Folha Dirigida condecora aqueles que, por meio de suas atividades, promovem o bem comum e o desenvolvimento da sociedade brasileira, na visão dos eleitores. A votação foi feita por meio da internet, com base em colégio eleitoral composto por representantes de diversos segmentos da sociedade.

Bispo emérito de Duque de Caxias, Dom Mauro Morelli se destaca pela sua luta em prol de uma igreja aberta aos problemas do mundo. Defende a dignidade e os direitos humanos. Destaca-se pelo combate à miséria e à fome e na luta pela ética e cidadania. Foi um dos fundadores do Movimento pela Ética na Política. Junto com Betinho, fortaleceu a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Há 15 anos, Dom Mauro Morelli está à frente do CONSEA-MG, atuando no combate à fome e à desnutrição.