quarta-feira, 22 de maio de 2013

"A fome é um crime hediondo e grave pecado", afirma Dom Mauro Morelli

21 de maio de 2013
 
Do IHU Online
 
 
 
“Com o Papa Francisco, é possível que se revertam as opções predominantes na vida eclesial nas últimas décadas. Num mundo torturado pela fome, a maré ‘não está pra peixe’. Quem tem ouvidos, ouça!”, declara bispo emérito da Diocese de Duque de Caxias e São João de Meriti.
 
“De 32 milhões de brasileiros, ainda subsistem 16 milhões em estado de insegurança alimentar e nutricional; mas a presunção nos leva a acreditar que em menos de duas décadas resolvemos uma calamidade que perdura desde 1500”, afirma Dom Mauro Morelli, bispo emérito da Diocese de Duque de Caxias e São João de Meriti, que há anos dedica-se a solucionar os problemas da fome e da miséria no Brasil.
 
Um dos críticos do Programa Fome Zero, no governo Lula, Morelli afirma que “a visão triunfalista impede dizer que não fizemos o mais importante. Patinamos em medidas assistenciais, exigência do direito lesado, negado ou periclitante, mas que, por natureza, não se destinam a equacionar problemas estruturais”.
 
Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele assinala que o mapa da fome cobre “toda a superfície do planeta e não será resolvido pela economia de mercado”. Cita como exemplo a proposta da Cúpula da Alimentação, convocada pela ONU, a qual tinha o objetivo de reduzir pela metade o número de famintos no mundo até 2015.
 
“Tudo o que foi feito não atinge o objetivo proposto, ou seja, quatrocentos milhões, uma vez que estamos chegando a 2015 com mais de 1 bilhão de seres humanos sofrendo os horrores da fome não atendida”, lamenta.
 
Mauro Morelli foi o fundador do Instituto Harpia Harpyia e um dos fundadores do Movimento pela Ética na Política. Fortaleceu a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Esteve à frente da criação do conceito de segurança alimentar como combate à fome e foi um dos articuladores do programa Mutirão de Combate à Desnutrição Materno-Infantil.
 
Foi membro do Comitê Permanente de Nutrição da ONU, e atualmente é presidente do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Minas Gerais – CONSEA/MG.
 
Confira a entrevista.
 
IHU On-Line – A partir do trabalho que desenvolveu de combate à miséria e à fome, como avalia essa questão no país? Considerando o tempo que o senhor atua a favor dessa causa, que balanço faz da questão?
 
A fome em si é coisa boa. Um sintoma ou alerta emitido pelo cérebro para chamar atenção para a necessidade de alimentar e nutrir o organismo, pois a vida é um processo permanente de alimentação. Alimento é Vida.
 
Problema sério é ser privado do direito ao acesso e gozo do alimento. Mais do que um problema, trata-se de ser vítima de crime hediondo e grave pecado. A questão não é acabar com a fome, mas garantir acesso e gozo ao alimento que sacia e nutre.
 
A Força da Vida vem da luz, do oxigênio, da água, das carícias da brisa e da ternura do amor. Leite materno, arroz e feijão, legumes e frutas, peixes e carnes são indispensáveis nas etapas de nosso desenvolvimento e formação.
 
Alimentação saudável, adequada e solidária é imprescindível desde a gestação até o encerramento do ciclo histórico de nossa existência. Em nosso DNA estão registradas certezas e angústias da importância prioritária do alimento e da nutrição na história da humanidade.
 
As civilizações e a rica diversidade cultural entre os povos atestam a centralidade do alimento e da nutrição para a realização das pessoas, das famílias e nações. Alimento e nutrição são exigências inegociáveis da nossa vida no planeta, portanto direito humano básico e determinante para tudo o mais.
 
A garantia do alimento fundamenta a própria paz. Alimentar o corpo, a alma e o espírito é questão de cidadania planetária e razão primeira do progresso e do desenvolvimento.
 
IHU On-Line – Como se constitui hoje o mapa da fome no Brasil? Em que regiões do país a fome ainda continua sendo um problema central?
 
O Mapa da Fome cobre toda a superfície do planeta e não será resolvido pela economia de mercado; ao contrário, ele é cada vez mais agravado pela degradação ambiental e exclusão social, pela instabilidade do emprego e migração forçada a que famílias e povos estão submetidos, submissão que se dá por um modelo de desenvolvimento que suga as riquezas da terra e as energias de quem trabalha e, ao mesmo tempo, que cultiva o desperdício e concentra bens e riquezas.
 
Em 1996, em Roma, a Cúpula da Alimentação, convocada pela ONU, marcou data e definiu compromisso para o enfrentamento do problema da fome no mundo. “Tudo faremos para reduzir pela metade o número de famintos no mundo até 2015”.
 
Em verdade tudo o que foi feito não atinge o objetivo proposto, ou seja, quatrocentos milhões, uma vez que estamos chegando a 2015 com mais de 1 bilhão de seres humanos sofrendo os horrores da fome não atendida. É impossível sonhar com a paz enquanto uma só criança definhar e morrer de fome (Isaías, 65).
 
Entre nós, muito foi feito; de 32 milhões de seres humanos, ainda subsistem 16 milhões em estado de insegurança alimentar e nutricional. Mas a presunção nos leva a acreditar que em menos de duas décadas resolveremos uma calamidade que perdura desde 1500.
 
Mais grave ainda é a visão triunfalista que impede dizer que não fizemos o mais importante. Patinamos em medidas assistenciais, exigência do direito lesado, negado ou periclitante, mas que, por natureza, não se destinam a equacionar problemas estruturais.
 
A obesidade em números alarmantes é a outra face da realidade nutricional resultante do assistencialismo com suas migalhas e da falta de educação alimentar e nutricional que nos motive a comer e beber como opção pela vida. Não nos esqueçamos, além do mais, que “o veneno está à mesa”, dada a qualidade dos alimentos produzidos e comercializados visando o lucro.
 
Deve ser atribuído a Josué de Castro o mérito de termos atingido elevado grau de consciência sobre as causas e males da fome. Por seu testemunho e obra, pode ser denominado e honrado como o grande Profeta da Vida no século XX. Nos mangues do Capibaribe, e não na Sorbonne, ele entendeu a fome.
 
“Um dos fatores mais constantes, o desequilíbrio econômico, com as desigualdades sociais que dele nascem”. “A fome sempre existiu perto da riqueza e da abundância. O que é novo no mundo é a consciência que os povos famintos têm da realidade social e da sua condição e a impaciência que experimentam para se libertar da fome e de suas misérias”.
 
Na obra Geopolítica da Fome (1946), afirma com indignação: “Nenhuma calamidade é capaz de desagregar tão profundamente e num sentido tão nocivo a personalidade humana como a fome”.
 
IHU On-Line – Em que consiste uma política pública comprometida em acabar com a fome no mundo?
 
Na Carta Encíclica Caridade na Verdade (n. 27), Bento XVI louva a “quem se consagra a trabalhar para erradicação da miséria e dos males da fome, pois contribui para a preservação do planeta e a paz mundial”.
 
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, em sua 40ª Assembleia Geral (2002), assumiu o compromisso de promover um Mutirão Nacional à luz de “Exigências Evangélicas e Éticas para a Superação da Miséria e da Fome” (Doc. 69).
 
Observo que, no número 66, não deixa dúvida que “um dos primeiros sinais de efetiva evangelização, no início deste milênio, será a eliminação da fome decorrente da miséria, em nosso país”. No número 65 recomendava acompanhar a continuidade da Cúpula Mundial da Alimentação!
 
Com o Papa Francisco é possível que se revertam as opções predominantes na vida eclesial nas últimas décadas. Num mundo torturado pela fome, a maré “não está prá peixe”. Quem tem ouvidos, ouça!
 
Cabe à família, à sociedade com todas suas instituições, e aos governos, em todos os níveis e áreas de abrangência, zelar, promover e garantir o acesso e gozo do alimento e da nutrição a cada criança que nasce neste planeta. Devemos combater a concentração de riqueza e sua filha primogênita, a miséria.
 
Integrados na cadeia alimentar, que constitui a riqueza e a originalidade do planeta em que fomos dados à luz, cabe-nos zelar e cuidar das fontes da vida e de sua sociobiodiversidade.
 
É tarefa urgente fazer surgir e/ou fortalecer sociedades democráticas que garantam e promovam o bem comum e direito humano básico, assegurando a cada um o acesso ao alimento e à nutrição para uma vida saudável e participativa.
 
Além disso, é tarefa urgente promover o desenvolvimento local, integrado e sustentável que defenda, preserve, recupere e conserve o meio ambiente para a atual e para as futuras gerações.
 
Pode ser um bom começo planejar o desenvolvimento de baixo para cima, em cada microbacia, à luz do binômio indissolúvel Educação e Nutrição, para atingir os objetivos da Lei n. 11.957, com novas disposições sobre alimentação escolar.
 

terça-feira, 2 de abril de 2013


REDE SEMENTE DE PAZ

 

Computação em Nuvem

 

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Apresentação

 

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Alimento é Vida.  A Vida é um processo permanente de alimentação.

 

A força da Vida vem da luz, do oxigênio, da água, das carícias da brisa que sopra e da ternura do amor. Leite materno, arroz e feijão, legumes e frutas, peixes e carnes, são indispensáveis nas etapas de nosso desenvolvimento e formação. 

 

Alimentação saudável adequada e solidária é fundamental desde a gestação até o encerramento do ciclo histórico de nossa vida. Em nosso DNA estão registradas certezas e angústias da importância prioritária do alimento e da nutrição na história da humanidade.

 

As civilizações e a rica diversidade cultural entre os povos atestam a centralidade do alimento e da nutrição para a realização das pessoas, das famílias e das nações.  A garantia do alimento fundamenta a própria paz.

 

Alimento e nutrição são exigências inegociáveis da nossa vida no planeta, portanto um direito humano básico e determinante para tudo mais. Alimentar o corpo, a alma e o espírito, uma questão de cidadania planetária e razão primeira do progresso e do desenvolvimento.

 

Assim, pois, cabe à família; à sociedade, com todas as suas instituições; e aos governos, em todos os níveis e áreas de atuação e abrangência; zelar, promover e garantir o acesso e gozo do alimento e da nutrição a cada criança que nasce neste planeta, em todas as etapas de sua vida.

 

Integrados na cadeia alimentar que constitui a riqueza e a originalidade do planeta em que fomos dados à luz, cabe-nos zelar e cuidar das fontes da vida e da riqueza da sociobiodiversidade do Planeta Azul. Nada de desperdício e de acúmulo de riqueza e de bens. Com gratidão e comprometidos com o futuro da vida do planeta, cultivemos a sustentabilidade através da frugalidade e sobriedade de vida.

 
A Companhia de Processamento de Dados do Município de Porto Alegre – PROCEMPA e o Instituto Harpia Harpyia – Agência de defesa e de promoção do direito humano básico ao alimento e à nutrição - INHAH, como expressão de responsabilidade social, oferecem uma plataforma virtual para o pouso e o diálogo entre pessoas e instituições do planeta comprometidas com o Alimento como Caminho da Paz.

 

Estamos articulando um Centro Virtual de Convergência em Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável, com suporte avançado de Tecnologia de Informação e Comunicação e visão da problemática relacionada à fome no mundo, tendo o direito como fundamento, o meio ambiente como determinante e a saúde como razão de ser. A criança, a menina dos olhos!

 

Com ousadia e confiança apresentamos esta iniciativa, denominada REDE SEMENTE de PAZ, contando com a participação e generosidade de parceiros no processo de montagem, definição, coordenação e sustentação da plataforma que nos proporcione avanços no diálogo para a superação da exclusão social, degradação ambiental e dos males da fome.

 

Queremos sonhar e caminhar em busca do Dia da Paz quando nossa gente vai colocar a semente na terra para uma colheita abundante (Zacarias 8, 4-5 e Jeremias 31,12-15). Então, nossas crianças crescerão vigorosas, inteligentes, criativas e bem humoradas.

 

 

 

Quem somos

 

 

REDE SEMENTE DE PAZ – CENTRO DE CONVERGÊNCIA EM SANS

 

Como Centro de Convergência em Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável, constitui-se uma rede de atores sociais, políticos e acadêmicos capazes de articularem áreas de conhecimento, produção científica e do saber popular, para pesquisa, informação, monitoramento, documentação, banco de dados, mobilização social, formação, promoção da cidadania e participação social pelo direito humano à alimentação e nutrição; capazes de propor políticas públicas, assim como soluções tecnológicas, pedagógicas e metodológicas para a segurança alimentar e nutricional sustentável, assim contribuindo para a defesa e promoção da nutrição materno-infantil, a saúde do povo, o exercício da cidadania e consequente fortalecimento da democracia.

 

OBJETIVO GERAL

 

Contribuir para o surgimento e fortalecimento de Sociedades Democráticas, em Estado constituídas, que garantam e promovam o bem comum primeiro e direito humano básico, ou seja, que assegurem a cada ser humano o acesso ao alimento e à nutrição para uma vida saudável e participativa, pela promoção do desenvolvimento local, integrado e sustentável que defenda, preserve, recupere e conserve o meio ambiente para  atual e futuras gerações.

 

 

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

 

( Em breve continuação)

 

 

sexta-feira, 8 de março de 2013



Enfrentamento da seca em Minas Gerais



O presidente do CONSEA, Dom Mauro Morelli, entregou ao CTSANS uma moção para o enfrentamento da seca em Minas Gerais. O documento foi apresentado durante reunião realizada no Palácio Tiradentes

 
O Semiárido em Minas Gerais abrange as regiões Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha, onde vivem mais de 3,5 milhões de pessoas, e caracteriza-se, principalmente, pela distribuição irregular de chuvas durante o ano. A região enfrenta, atualmente, uma das piores secas registradas nos últimos 40 anos em consequência das mudanças climáticas que vêm afetando todo o planeta com irregularidades e concentração das chuvas em curtos períodos.

Esse fenômeno intensifica-se com o processo de desertificação que enfraquece os solos diminuindo a capacidade de produção da agricultura familiar e camponesa, não havendo água de qualidade para consumo e tão pouco para a produção de alimentos. 

Estima-se que a vida de 30.000 (trinta mil) famílias está ameaçada nos processos reprodutivos, que pode ocasionar o êxodo rural em busca de sobrevivência, constituindo-se, assim, os refugiados da seca e da fome em nosso Estado.

Diante desta situação, o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Minas Gerais (CONSEA-MG) deliberou em plenária no dia 04/03/2013 recomendações ao Governo do Estado como medidas urgentes de curto, médio e longo prazo, a serem ampliadas com outras estratégias governamentais, para enfrentamento desta situação:

·         Destinar recursos do Fundo Estadual de Erradicação da Miséria (FEM) à aquisição de alimentos para o consumo humano e animal, com apoio da defesa civil, garantindo que o processo de identificação e seleção das famílias seja realizado com a participação efetiva do CONSEA-MG, por meio das Comissões Regionais de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável.
·         Solicitar à Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), através dos estoques reguladores de grãos, a doação de alimentos para consumo humano e animal e de sementes.
·         Possibilitar às famílias flageladas acesso aos serviços e políticas públicas dos programas Água para Todos, Cultivar, Nutrir e Educar, Bolsa Verde, Regularização Fundiária, entre outros.
·         Estabelecer parceria com os municípios que possuem bancos de alimentos e outros equipamentos de segurança alimentar e nutricional, mapeando e identificando a produção excedente e garantindo a logística de distribuição.