Bispo emérito da Diocese de Duque de Caxias e Presidente do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Minas Gerais(CONSEA-MG)
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
O Evangelho é uma Boa Nova.
O Evangelho, segundo João, começa com um Prólogo.
O Evangelho, segundo João, começa com um Prólogo.
No princípio e na origem de tudo o Verbo ou a Palavra. Nele
tudo foi feito e para ele tudo se destina.
De certa forma, ressalvado o que deve ser ressalvado,
escrevo um prólogo para o Plano Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional
Sustentável.
Em 1999, quando
iniciei minha peregrinação por Minas Gerais, Segurança Alimentar Nutricional
Sustentável soava como linguagem de outro planeta, segundo ainda recentemente
ouvi de um amigo.
Eis o prólogo!
Alimento é vida. A
vida é um processo permanente de alimentação.Comer e beber para viver, um direito humano básico. Comer como gente e na companhia de gente.
A toda criança que nasce em Minas Gerais e em qualquer outro
recanto do planeta será garantido o acesso ao alimento saudável, adequado e
solidário, como direito e não por compaixão.
A defesa e promoção do direito humano ao alimento e à
nutrição visa formar um povo saudável, inteligente, criativo e bem humorado!
Em nossos dias, o caminho percorrido nasceu da pregação de
Josué de Castro, o profeta de um mundo livre dos males da fome.
Foi declarado urgente pela pregação de Dom Helder, outro
nordestino, pelo testemunho de Betinho e pela imensa caridade de Dom Luciano.
Não esqueçamos as mulheres e homens da Pastoral da Criança
subindo morros e descendo ladeiras para resgatar crianças da desnutrição e da
morte.
Houve um homem enviado por Deus para ser o aliado do povo,
seu nome: ITAMAR.
Passo a passo a luz foi se transformando em labareda que
ilumina e aquece o ânimo de tantos peregrinos.
Decretos e até uma lei surgiu gestada pelo povo, transformada
em mensagem pelo Executivo, acolhida no Legislativo pela maioria e aplaudida
pela oposição. Uai! Estamos em Minas Gerais!
Ao longo do tempo, cinco conferências estaduais, precedidas
de outras tantas conferências regionais e mais articulações.
A estrada não termina e o desafio permanece, muitas milhas a
percorrer.
Em cada município, surgirá uma aliança que garanta a cada
criança educação e nutrição.
Nas dez macro regiões de planejamento, diagnósticos devem
ser produzidos e planos regionais implementados por exigência da realidade e da
cidadania.
Nenhum planejamento irá ignorar que a sociobiodiversidade á
a maior riqueza das Minas Gerais.
Eis que agora é hora de cultivar, nutrir e educar. Alimento
é Caminho da Paz.
Belo Horizonte, 12 de dezembro de 2012
Dom Mauro Morelli
Bispo Emérito da Diocese de Duque de Caxias
Presidente do Conselho de Segurança Alimentar e
Nutricional Sustentável de Minas Gerais
Fundador do Instituto Harpia Harpyia
domingo, 24 de junho de 2012
O TEMPLO CÓSMICO DE DEUS
1. INTRODUÇÃO
Irmãs e irmãos,
paz e bem no Senhor Jesus!
Em minha
peregrinação no Caminho do Evangelho, estou aprendendo a viver a oração de
Jesus pela unidade (Jo.17) como um mandamento-missão
afim de que o mundo creia, isto é, afim de que haja vida na terra como no céu.
A sabedoria do Evangelho e as energias da Fé devem ser canalizadas para a renovação
da família humana e a preservação da natureza.
Com esta
compreensão e com este espírito, as duas dioceses da Igreja Católica Apostólica de Comunhão Romana, na Baixada
Fluminense, acolheram o encontro ecumênico promovido por este Conselho Mundial
de Igrejas durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento,
também denominada Cúpula da Terra ou Eco 92.
2. EVENTOS
Antecedendo à
Cúpula da Terra, vários eventos de carater nacional e internacional foram
realizados no Brasil, entre quais um seminário sobre ecologia e desenvolvimento
promovido, em Brasília, pelas Pastorais Sociais da Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB).
A CNUMAD,
propriamente dita, com a participação de mais de cem Chefes de Estado,
aconteceu no RIO CENTRO, de 03 a 14 de junho de l992, na cidade do Rio de
Janeiro, no Brasil.
Ao mesmo tempo,
no ATERRO do FLAMENGO, milhares de eventos, entidades não-governamentais e
pessoas constituiam e participavam do FORUM GLOBAL.
O encontro
ecumênico na Baixada Fluminense, promovido pelo Conselho Mundial de Igrejas,
fez parte da programação do
Forum Global. Provenientes de 54
países, 175 mulheres e homens das grandes famílias cristãs, de 01 a 07 de junho
de l992, buscaram uma resposta ecumênica
aos desafios levantados pela Cúpula da Terra. A experiência vivida no
encontro ultrapassa em grandeza aos documentos elaborados, como a Carta às
Igrejas.
Cada manhã os
trabalhos eram precedidos de meia hora de celebração na capela. Na noite do
primeiro dia (01/06), na Catedral de
Nova Iguaçú, as Comunidades e o
Presbitério da diocese acolheram os participantes do encontro com uma
celebração que impressionou profundamente aos irmãos de outros países pela
simplicidade, dignidade e autenticidade das pessoas que animaram os vários
momentos da celebração.
No dia 04/06, à noite, treze comunidades católicas e
metodistas, dos vários municípios da Baixada Fluminense, foram visitadas pelos
participantes do encontro ecumênico. Pelos testemunhos colhidos no dia
seguinte, nosso povo revela muito sofrimento e humilhação, mas ao mesmo tempo
manifesta o poder do Espírito : "povo oprimido, mas não derrotado"
- uma das expressões colocadas em
plenário!
Sem dúvida,
ponto culminante foi a Vigília de Pentecostes na Catedral de Duque de Caxias.
Tendo início às vinte e duas horas do sábado (06/06) com a inscrição dos
participantes, a Vigília contou com a presença e participação de setenta e
duas Igrejas. Cerca de oitocentas pessoas, até à meia-noite e meia hora, celebramos
o acolhimento no Senhor Jesus, seguido de ato penitencial presidido pelo pastor
presidente da Federação Luterana Mundial, Rev.Dr.G. Brakemeier.
Após intervalo
de uma hora, em que foi servida uma refeição a todos os participantes, teve
lugar a Liturgia da Palavra, presidida pelo bispo anglicano em Madagascar,
Rt.Rev.Rémi Joseph Rabenirina, com homília proferida pelo teólogo franciscano
Leonardo Boff. A acolhida à Palavra de Deus foi animada pela entrada da Bíblia
precedida de tochas e acompanhada de danças em ritmo afro. A beleza desse
momento permanecerá na memória de todos como um dos pontos altos daquela noite
pascal.
A Vígilia
prosseguiu com um tempo de partilha ou
de oração em grupos informais. Novo intervalo com frutas, refrigerantes
e café, proporcionou momentos de confraternização.
Às quatro horas
e trinta minutos foi acesa a fogueira, tendo início a proclamação e celebração
de Pentecostes. Concentrada em volta das escadarias, na parte externa da
Catedral, a Assembleia acolheu a procissão que saía do interior do templo com
os símbolos e ministros que iriam animar o Rito da Fogueira, a Caminhada da
Luz e a celebração da Nova Criação na
alvorada do Domingo de Pentecostes.
A proclamação de
Pentecostes (Atos 2,1-11) junto à fogueira; a diversidade de raças e línguas, o
pluralismo no caminho da Fé; a madrugada, na Baixada do terror e da morte,
iluminada pela Luz de Cristo; o pão abençoado (Rev.Eszter Karsay - da Hungria)
e repartido na praça central de Duque de Caxias; a homília do Rev. Emilio
Castro e, finalmente, a presença de crianças de vários países do mundo,
transformaram aquela comovente e edificante experiência em um novo Pentecostes
para mais de sete mil cristãos presentes na celebração final do encontro
ecumênico em resposta à "Cúpula da Terra" das Nações Unidas.
3. CENÁRIO E CONTEXTO DA CNUMAD
Na perspectiva
da maioria dos participantes do Forum Global, a Conferência teve lugar no
contexto mundial de crescente ameaça a todas as formas de vida no planeta
Terra.
No contexto
brasileiro, a higiene e a segurança oferecidas aos visitantes ilustres não
conseguiram ocultar ou encobrir a degradação e a decomposição da natureza e da
vida nos morros e baixadas da Cidade Maravilhosa, como uma amostra chocante
dos contrastes de um
país, belo e rico, estruturado em favor de uma minoria privilegiada.
Sem dúvida, os
poderes da República Federativa do Brasil conseguiram demonstrar grande
capacidade de organização e eficiência na preparação e realização da
conferência da ONU e, ao mesmo tempo, um grau refinado de cinismo, afastando indigentes e
"pivetes" do espetáculo reluzente e maravilhoso do RIO CENTRO e do
ATERRO do FLAMENGO.
Conforme
palavras da "CARTA ÀS IGREJAS":" com sentimento de urgência
reunimo-nos na Baixada Fluminense...uma região conhecida por uma profunda
degradação das condições de vida da maioria da população ...juntamente com
elevados índices de poluição que degrada o meio ambiente. Isto foi simbólico
para nós , pois onde quer que se negue aos seres humanos sua dignidade criada
por Deus, tambem se nega a dignidade ao
restante da criação". "Vinte anos após a Conferência de
Estocolmo...nenhuma tendência importante de degradação ambiental foi
revertida. Hoje toda a vida está ameaçada num grau bem mais elevado. Muitas
espécies de animais e plantas foram extintas. A poluição da água , do solo e
do ar é maior do que nunca. A desertificação e o desmatamento se aceleram.
Enormes quantias de dinheiro gasto em armas e na militarização continuam a
exaurir recursos desesperadamente necessários...O ônus da dívida dos países
pobres tornou-se cada vez mais asfixiante. A fome aflige um número crescente de
pessoas, não apenas na Ásia, África e América Latina, mas tambem nos países da
Europa Oriental, no Oriente Médio, no
Extremo Oriente, no Caribe e até dentro das nações afluentes do assim chamado
"Primeiro mundo"."
4.PERSPECTIVAS E PROPOSTAS PARA TESTEMUNHO E AÇÃO DOS
CRISTÃOS
Inspirando-me em
documentos elaborados por
ocasião da
CNUMAD, convido
fraternalmente os irmãos e irmãs do Comitê Central do CMI a perceber que as
situações de crise sempre trazem em seu bojo sementes de renovação.
Iluminados pela
Fé, os acontecimentos e situações da história humana sempre manifestam a
presença de Deus chamando-nos à vida em comunhão, pois nos fez à Sua imagem e
semelhança.
A grave crise
ecológica está produzindo convergência e
oferecendo base para o entendimento entre os povos. Somos forçados a tomar
consciência dos limites da natureza e da autonomia de cada nação.
Nenhum povo
consegue fechar suas fronteiras e permanecer imune às consequências de uma
catástrofe ecológica. Nem mesmo as ilhas do Pacífico ou do Caribe estarão a
salvo dos danos causados pela contaminação da terra. Da mesma forma, nenhuma
Nação ou Estado permanecerá, por muito tempo, próspero e em paz, sem o resgate
de mais de um bilhão de pessoas humanas,
amadas por Deus em Cristo como filhos e
filhas, condenadas a definhar na indigência, sofrendo a negação e o
aviltamento de sua dignidade.
O atual modelo
de desenvolvimento da ordem econômica internacional é insustentável. Mais do
que isso: criminoso e blasfemo! Arranca as raízes da vida e elimina a esperança
da face da terra. Sòmente podemos aceitar um modelo de desenvolvimento que garanta os direitos de toda a humanidade
com justiça, paz e integridade da
criação.
Vivemos um momento
rico de esperança. Não há mais tempo para fantasias e insensibilidade. Ninguém
mais conseguirá dormir tranquilamente. As sirenes nos convocam para a vida e a
paz!
A utopia do
"pão nosso de cada dia" será a estrela que conduzirá a humanidade ao
encontro da criança-vida!
A Carta às
Igrejas apresenta a perspectiva para nosso compromisso: " E as crianças,
o que diremos às crianças e às gerações vindouras? Chegamos...à conclusão de
que o sistema dominante está explorando a natureza e os povos em escala
mundial..."
"É
extremamente urgente - continua o documento - que nós como Igrejas, assumamos
compromissos espirituais, morais e materiais vigorosos e permanentes, com o
surgimento de novos modelos de sociedade, baseados numa profunda gratidão a
Deus pela dádiva da vida e no respeito pela totalidade da criação ".
Sem dúvida
cabe-nos urgir e incentivar a atuação política dos cristãos junto aos
parlamentos e governos de seus países afim de que as convenções e documentos da
CNUMAD sejam assinados, ratificados e implementados nos vários níveis de ação
que exigem.
5.UM NOVO JEITO DE SER IGREJA
"A voz de
Deus também convida à conversão a própria Igreja. Os cristãos não estão isentos de responsabilidade em relação
aos modelos de desenvolvimento que têm provocado os desastres sociais e
ambientais em que nos encontramos" (CNBB - Comunicado final do Seminário sobre Ecologia e Desenvolvimento).
Como expressão
de auto-crítica, a nossa "Carta às Igrejas" lembra que, no testemunho
e no anúncio da Fé, é importante estar
sempre atento à contribuição da ciência e ao clamor do povo.
"Não
ousamos negar nosso próprio papel como Igrejas na crise que agora nos assola.
Nós mesmos não proferimos a palavra profética. Na verdade, nem mesmo a ouvimos
quando foi dita por outros recentemente, incluindo uma série de cientistas. E
muito menos demos ouvido aos clamores dos povos indígenas, que nos disseram
durante séculos que a modernidade iria sujar seu próprio ninho e devorar seus
próprios filhos. Assim precisamos sentir pesar e nos arrependermos" (
Carta às Igrejas ).
Um jeito novo de
ser Igreja se faz necessário, afim de que a comunidade eclesial passe a ser o
espaço em que todos possamos aprender de maneira nova o que significa a aliança
de Deus com todas as criaturas.
A redescoberta
da dimensão ecocêntrica e das limitações da natureza devem nos levar a apreciar e cultivar um estilo de vida sem
ganância ou esbanjamento, aprendendo a amar e a tratar a terra com gentileza,
como o faz o próprio Deus. Podemos falar
de uma nova espiritualidade.
"O Espírito
é doador e mantenedor da vida. Tudo o que fomenta a vida, como a justiça,
solidariedade e amor, e tudo o que
defende a vida, como o compromisso evangélico de posicionamento ao lado dos
pobres, a luta contra o racismo e o sistema de castas e o compromisso de reduzir
os armamentos e a violência - tudo isso significa concretamente viver de acordo
com o Espírito. Para o cristão, isto é mais do que um ato político: é uma
prática espiritual. Mais ainda, viver de acordo com o Espírito é captar sua
presença em toda a criação" (Carta às Igrejas).
"Como seres
humanos somos convocados a desenvolver uma consciência criatural onde a
criação deixa de ser vista como objeto de domínio. Ela é um dom de Deus que
deve ser acolhido com reverência, respeito e louvor. Sòmente a vivência dessa
relação do ser humano com a criação possibilitará novas relações sociais e
ambientais e um novo tempo de paz e justiça. É neste contexto que recebem seu
pleno significado as palavras de Cristo:"Eu vim para que todos tenham
vida, e vida em abundância" (Jo.10,10). Com sua Ressurreição Êle inaugurou "o novo céu e a nova
terra"(Apocalipse 21,1) que agora somos chamados a construir com a força
de Seu Espírito" (Comunicado final do Seminário sobre Ecologia e
Desenvolvimento - CNBB).
As celebrações
da Igreja deveriam valorizar o uso de elementos materiais e cultivar a
capacidade de escuta para entrar em sintonia com a sinfonia cósmica regida pelo
Espírito. Ao mesmo tempo, uma atitude penitencial deverá nos conduzir à reconciliação
entre mulher e homem, entre raças, culturas e povos, aprendendo a manter uma
postura de encantamento e de louvor perante todo o ser e todo o conjunto de
seres. Somos o corpo de Cristo e membros do templo cósmico de Deus!
Louvo ao Senhor
da História pela graça do encontro realizado na Baixada Fluminense. Os humildes
e marginalizados foram reconhecidos como irmãos pelas mulheres e homens vindos
ao Rio de Janeiro dos quatro cantos da terra. Louvemos, também, ao Senhor,
pois o testemunho e o jeito das Comunidades dos pobres, podem inspirar a toda a
Igreja de Cristo um jeito novo de ser!
Igreja animada
pelo Espírito da Ressurreição. Igreja que proclama a fidelidade de Deus, Sua
misericórdia e parceria com o povo que caminha na história. Igreja que na
fraqueza e na ignorância dos pequenos proclama a manifestação da força e da
sabedoria de Deus.
Igreja que se
alegra com o pluralismo e com a diversidade. Ao mesmo tempo, Igreja
comprometida com a igualdade das pessoas e que não faz distinção ou discrimina
quem quer que seja. Igreja em que mulheres e homens se descobrem, para alegria
de todos e vida do mundo, ministras e ministros do Evangelho. Igreja verdadeiramente
católica, ecumênica e ministerial.
Igreja que não
coloca esperança no ouro, na sabedoria, no prestígio e no poder. Igreja
decididamente comprometida com a vivência, testemunho e serviço à vida em
comunhão. Igreja do pão abençoado, partido e repartido por todos e para todos.
Igreja solidária com as alegrias e dores da família humana.
Igreja sempre a
caminho...em busca do novo! Como uma criança que aprende a correr para abraçar
o horizonte!
***
Reunião do Comitê Central - Conselho Mundial de Igrejas
Genebra, 22 de agosto de 1992
+ Mauro Morelli - 1º bispo da Igreja Católica Apostólica
de Comunhão Romana em Duque de Caxias e São João de Meriti
* * *
terça-feira, 19 de junho de 2012
A
águia da Mantiqueira
Altaneira e
soberana, com dois metros e vinte de envergadura, sobrevoa e vigia a natureza
exuberante e bela da Serra da Mantiqueira. Revestida de luz, como um raio,
mergulha certeira sobre o banquete da vida.
Não saberia
dizer se minha visão remonta aos idos de antanho ou, recente, fruto dos
devaneios de uma tarde de verão nas fraldas da serra que chora suas saudades.
Harpia
harpyia, a águia da Mantiqueira, manifestação soberba de força e de beleza,
com duplo penacho, bico e garras fortes e aduncos, pertence à família dos
Acipitrídeos. Também conhecida como gavião real, uiraçu e cutucurim. A fêmea é
rainha inconteste, ultrapassando o macho em tamanho.
Outrora, uma
presença esplendorosa nos céus e matas da Mantiqueira; a Harpia harpyia
encontra-se, hoje, em cativeiro ou cruzando para sempre nossos confins.
Desfeita a cadeia alimentar, não sobrevive com rações básicas e minguadas. Como
rainha, exige abundância e festa.
Os predadores
ou regentes do equilíbrio necessário ao ecossistema não resistem ao
esbanjamento da ganância humana e conseqüente degradação do meio ambiente.
Oxalá, reis e rainhas da economia neoliberal globalizada aprendam da Harpia
harpyia, dos gaviões reais, de outros abutres e predadores da natureza, o
sentido da interação que faz do planeta um lugar de tanta vida e beleza.
Após séculos
de rapina e saque de nossas riquezas, nossa gente busca sobreviver além
fronteiras do próprio ninho. Povos dizimados e migrantes forçados já não cantam
a beleza das aves, nem ouvem os trinados e gorjeios dos pássaros. Às margens
dos rios poluídos da Babilônia, choram saudades dos tempos em que cachorros
eram amarrados com lingüiça e crianças curtiam as delícias da vida colhendo
frutas silvestres em campos e bosques.
Seduzido pela
águia, sonho com um mundo sem fome e sem a guerra que traz morte e infortúnio.
Banhando-me nas águas límpidas de uma cachoeira, celebro o batismo da comunhão
com a natureza. Ouso imaginar a Harpia harpyia símbolo novo dos povos e
das terras do continente brasileiro e sul-americano.
Oxigenado pela pureza dos ares e embalado pela carícia da brisa quente, ecoa pelo vale o grito que brota de meu peito: Hárpia! Harpyia, pyia, pyia, pyia!!! Após longo silêncio, ouve-se um novo grito no embalo do eco que enche o vale de melodia: Cutucurim! curim... curim... curim!!!
Oxigenado pela pureza dos ares e embalado pela carícia da brisa quente, ecoa pelo vale o grito que brota de meu peito: Hárpia! Harpyia, pyia, pyia, pyia!!! Após longo silêncio, ouve-se um novo grito no embalo do eco que enche o vale de melodia: Cutucurim! curim... curim... curim!!!
Em busca de
um novo hino e de uma nova bandeira nesta passagem de milênio, a Harpia
harpyia seja símbolo de um modelo de desenvolvimento que nos garanta a
produção e o acesso ao alimento que nutre e sustenta a vida. Reverente às
fontes da vida, reconheça às gerações futuras igual direito ao oxigênio, à água
e aos frutos da terra.
Na esteira do
Movimento pela Ética na Política, não desistamos de abrir estradas para que a
organização econômica, social e política do país tenha como fundamento o
respeito às diferenças e igual empenho em eliminar as desigualdades entre
indivíduos e regiões da mesma Pátria.
Assim como a
águia não vive sem a pujança da Mantiqueira, a política de segurança alimentar
nutricional sustentável é um dos pilares da democracia, ou seja, da liberdade
de viver com dignidade e esperança. Por este eixo do desenvolvimento passa o
caminho da paz, pois garante um direito humano básico a toda e qualquer pessoa.
Criança, em qualquer classe social, tem igual direito ao alimento e à nutrição.
O idoso de qualquer raça ou profissão não mais produz, mas tem direito ao pão
de cada dia. Sem alimento, nenhum enfermo se liberta de seus males. Comer é
viver. A vida é comunhão. Um banquete!
Ao cruzarmos
a fronteira de um novo milênio que o Senhor da Vida nos conduza aos rincões,
serras e picos da Mantiqueira. Majestosa entre nuvens e raios de sol, que a sua
beleza nos fascine e nos revele o segredo de tanta grandeza.
Com luzes, preces e
abraços saudemos o novo milênio, comprometidos com o retorno da águia da
Mantiqueira a seu ninho. Assim, teremos vida para as crianças e não morrerá a
esperança do povo.
Nota: Quase doze anos depois a Águia da Mantiqueira continua o símbolo do meu compromisso e dos meus sonhos. Caminho na esperança de um mundo livre da degradação ambiental, da exclusão social e dos males da fome.
Torno público este texto no meu blog em referência à Conferência da ONU RIO + 20.
Em breve, espero publicar um novo texto. Ambos permitirão vislumbrar o que está sendo orquestrado em parceria entre INSTITUTO HÁRPIA HARPYIA, por mim fundado, e PROCEMPA, Empresa de Tecnologia de Informação e Comunicação do Município de Porto Alegre, comprometida com a promoção da cidadania e revestida de elevado padrão ético.
Quem sabe no Dia da Criança vamos inaugurar um Centro de Convergência Virtual de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável, aberto à participação dos povos do mundo.
sábado, 2 de junho de 2012
Mensagem ao Pastor Fredrik Lautmann
Caríssimo irmão e amigo,
a comemoração dos teus 40 anos de ministério à luz da Palavra (2 Tm 3,14-17) que iluminou teu caminho desde a primeira hora, é ocasião bendita para louvar e bendizer o Senhor, doador de todos os bens, porque pousou sobre ti o seu olhar amoroso e te chamou, desde tenra idade (Lc1,76-77), ao serviço do Evangelho.
Recordo-me de tua presença fraterna em nossa Igreja, em São Paulo, no início de meu ministério episcopal. Amigo e companheiro de Dom Paulo, nosso cardeal arcebispo, em dias de grande tribulação.
Tua compreensão do pluralismo e amor pela diversidade na Igreja de Cristo, um testemunho fiel do apreço pela sua unidade. Caminhando na fé que herdaste de tua família e de teu povo, teu coração foi sempre aberto e acolhedor para com outras heranças e legados. Deus seja louvado pela presença fraterna e carregada de esperança em tantas oportunidades que o Senhor te proporcionou ao longo destes anos.
Sempre atento à Palavra do Senhor dispensaste muito tempo e energia para partilhar a Palavra que é "lâmpada para os passos e luz para o caminho"(Salmo 118). Quantos encontros, seminários e retiros promoveste para ajudar as pessoas a levantar e a caminhar nas trilhas do Reino.
Ao lado de tua esposa, nossa querida amiga Charlotte, à luz da Palavra formaste tua própria família "ensinando-a, corrigindo-a, educando-a no caminho da justiça para qualquer boa obra".
Tua generosidade e amizade nos oferecia oportunidade de participar "ao vivo e em cores" do júbilo e das celebrações que comemoram tão preciosa efémeride. Minha irmã Tereza e eu atravessamos uma etapa nova no processo da vida, reconhecendo que Deus tem sido para conosco sábio, amoroso e misericordioso. Contudo, não nos sentimos com força para realizar esta longa viagem neste momento.
Que a tua família e a tua Igreja saibam que nós o amamos como a um irmão muito querido, bem como a Charlotte, tua esposa, a mulher bendita que o Senhor colocou a teu lado. Partilhamos da alegria de teus filhos e filha, netos e netas.
Recebam nosso abraço, acompanhado de preces e de votos de saúde e paz. Que o Senhor nos conceda a alegria de novos reencontros seja aqui ou em tua terra.
Permaneçamos unidos no serviço à esperança expressa no clamor pela vida de nosso povo: Vem, Senhor, Jesus.
Tereza e +Mauro, bispo emérito da Igreja Católica Apostólica de Comunhão Romana em Duque de Caxias, RJ, Brasil
Indaiatuba, SP, 02/06/2012
quarta-feira, 9 de maio de 2012
ENTREVISTA DOM MAURO MORELLI
Cultivar,
Nutrir e Educar: alimentação saudável para alunos da rede estadual e
fortalecimento da agricultura familiar
Com o objetivo de garantir aos alunos da rede
pública estadual o direito à alimentação saudável e adequada e fortalecer a agricultura
familiar, o Governo de Minas lança, nesta quarta-feira (09), em Viçosa, o
Programa Estruturador Cultivar, Nutrir e Educar. Em sua primeira fase, a
iniciativa vai contemplar 45 municípios, sendo dez na Zona da Mata mineira. Em
entrevista exclusiva para o Diário Regional, Dom Mauro Morelli, bispo emérito
de Duque de Caxias (RJ) e presidente do Conselho de Segurança Alimentar e
Nutricional Sustentável de Minas Gerais (Consea-MG), destaca a importância de
ampliação de um diálogo intersetorial, para proporcionar a otimização e a
sinergia dos recursos públicos, através de ações regidas por valores
compatíveis com os direitos humanos e a segurança alimentar e nutricional.
- Quais as bases do Programa Estruturador
Cultivar, Nutrir e Educar (PCNE)?
Dom Mauro Morelli - O Programa tem como
base a melhoria das condições de alimentação, nutrição e saúde da população,
mediante a promoção de práticas alimentares adequadas e saudáveis. É importante
ressaltar a relevância da iniciativa mineira ao criar o PCNE, contemplando o
binômio indissolúvel Educação e Nutrição,
garantindo o direito ao alimento saudável, adequado e solidário para os alunos
das escolas públicas estaduais de educação básica. O programa pretende
também fortalecer a agricultura familiar no Estado.
Outro destaque importante é a ampliação do
diálogo entre os diversos setores, proporcionando a otimização e a sinergia dos
recursos públicos, através de ações regidas por valores compatíveis com os
direitos humanos e a soberania alimentar.
- A descentralização das ações é uma das
estratégias adotadas pelo governo para a implementação do programa. Quais
resultados são esperados a partir dessa iniciativa?
Dom
Mauro Morelli - O Programa Estruturador Cultivar, Nutrir e
Educar tem caráter intersetorial, abrangendo as áreas de agricultura, saúde e
educação, e adota como estratégia principal a articulação com as Secretarias de
Estado executoras e demais órgãos e setores envolvidos. Esse formato
descentralizado e intersetorial, permite que sejam executadas ações que
englobam as seguintes vertentes: fomento à produção de alimentos saudáveis,
adequados e solidários, provenientes da Agricultura Familiar para o
abastecimento da rede pública de ensino; atendimento parcial às necessidades
nutricionais dos alunos, de acordo com o tempo de permanência na escola;
educação alimentar e nutricional e promoção de hábitos saudáveis; identificação
de distúrbios nutricionais e encaminhamento à atenção básica; promoção de ações
educativas em Vigilância Sanitária de alimentos.
Trata-se
de um grande avanço para a construção de políticas intersetoriais e amplia o
horizonte para que outras ações como esta surjam e se fortaleçam. Esta é uma
demonstração de que é possível a intersetorialidade de políticas universais que
promovam o desenvolvimento das pessoas, a inclusão social e ampliem a
disponibilidade e o acesso aos alimentos.
É sabido que não há educação sem que a pessoa tenha
sido bem concebida, gestada e desenvolvida. Isto é, sem que o corpo, alma e
espírito sejam devidamente alimentados e nutridos. Por outro lado, não há
nutrição sem educação. Consideramos a educação como processo
motivador que leva a pessoa a assumir a sua vida, isto é, aprender a se
relacionar consigo mesma, com seu semelhante, com o chão que a sustenta, de
forma harmoniosa. É também por meio de um processo permanente de educação
alimentar e nutricional, que o caminho da saúde é percorrido ao longo da vida.
Não se trata apenas de aprender algumas boas práticas, mas de fazer uma opção
pela vida em tudo o que somos, temos e fazemos.
- Quais municípios da Zona da Mata serão
atendidos pelo programa nessa primeira fase e como foram selecionados?
Dom Mauro Morelli - Inicialmente, o
Programa será executado em 45 municípios das Regiões Norte de Minas, Zona da
Mata, Rio Doce e Jequitinhonha/Mucuri. Na Zona da Mata serão contemplados, além
de Viçosa: Araponga, Carangola, Divino, Ervália, Espera Feliz, Fervedouro,
Miradouro, Muriaé e São Miguel do Anta.
Entre os critérios estabelecidos, estão os
indicadores selecionados pelas secretarias gestoras do Programa Estruturador
Cultivar, Nutrir e Educar, como o número de escolas estaduais, alunos, taxa de
internação por desnutrição infantil, índice de segurança alimentar e número de
agricultores familiares, entre outros.
A partir de 2013, as ações serão ampliadas a
outros municípios, de acordo com esses mesmos critérios, preestabelecidos pela
gerência do programa.
- Como o Estado espera fortalecer a
agricultura familiar a partir do programa Cultivar, Nutrir e Educar?
Dom Mauro Morelli - Como uma das
prioridades do Programa Estruturador Cultivar, Nutrir e Educar é contribuir
para a compra da produção da agricultura familiar pelas escolas, isto
estimulará os agricultores familiares a produzirem mais e melhor. Esse estímulo
garante também a segurança alimentar e nutricional da família do pequeno
produtor, que consome e comercializa o excedente da produção. Assim, o PCNE
representa uma excelente oportunidade de comercialização para a agricultura
familiar. É um mercado garantido, pois se trata de um recurso público
determinado por legislação federal. Os agricultores familiares têm a
oportunidade de planejar a sua produção. As
vantagens são inúmeras: melhora a qualidade da alimentação, aquece a economia
local, fortalece a agricultura familiar, contribui para diminuir o êxodo rural,
etc.
- Como se dará a operacionalização do
Programa?
Dom Mauro Morelli - O primeiro passo é a
realização dos quatro seminários regionais. Dois deles já foram realizados (em
Taiobeiras e em Ipatinga) e, além de Viçosa, que sedia o evento nesta quarta e
quinta-feiras, Capelinha também será sede, nos dias 30 e 31 de maio. Os
seminários têm como objetivo o fortalecimento das parcerias na região e a
divulgação das informações necessárias ao desenvolvimento do programa.
O segundo passo será a definição do Comitê
Gestor local, que será presidido por um membro do poder público estadual e
deverá ser composto por representantes do Governo e da Sociedade Civil (Emater,
Secretaria Municipal de Saúde, Secretaria Municipal de Agricultura, IMA,
Escolas Estaduais, Conselhos Municipais de direitos deliberativos de políticas
públicas sociais, sindicatos de trabalhadores rurais, associações e
cooperativas da agricultura familiar, entre outras instituições). O Comitê será
responsável pela elaboração do “Plano de Ação”, um planejamento de todas as
ações necessárias para atingir o resultado desejado. O plano deve contar com
objetivo, ações, cronograma e estratégias. O quarto passo é a execução das
ações previstas nos projetos e processos, sob a responsabilidade das
Secretarias de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento; da Saúde; e de
Educação.
- Quais ações o Consea-MG já desenvolve para
garantir o direto humano à alimentação no Estado e os resultados?
Entre as ações estão o acompanhamento das
políticas públicas e programas da Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável
(SANS), sua implementação, monitoramento e controle social. Em Minas
Gerais os avanços foram promissores. Como marco histórico, a promulgação da Lei
15.982/06, que inova com a criação da política e do sistema estadual de SANS,
instituindo as CRSANS (Comissões Regionais de SANS - Segurança Alimentar e
Nutricional Sustentável). Dessa forma, garantindo o funcionamento de um sistema
que abarca a elaboração da política estadual de SANS ao controle social, com
participação popular. Posteriormente, a construção do PESANS (Plano Estadual de
SANS), respeitando as diversas etapas exigidas na consecução da política
pública. Transformando, assim, o primeiro Estado da Federação brasileira a
instituir em lei a política de SANS e a garantir o Direito Humano à Alimentação
Adequada (DHAA). Em 2011, o Consea-MG, sentindo a necessidade de avançar mais,
propôs ao governo de Minas a criação da Subsecretaria de Estado de Agricultura
Familiar e foi atendido. Além disso, solicitou a criação do Comitê Temático de
Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (CTSANS), com vistas a articular
a política no âmbito estadual.
terça-feira, 10 de abril de 2012
OS PÉS DE CRISTO
" Como são belos sobre as montanhas
os pés do Mensageiro da Paz".
Is. 52,6
Pés tenros de criança
acariciados pela mãe.
Pés sujos de menino
brincando em Nazaré.
Pés firmes de moço
pisando os caminhos do Pai.
Pés tostados nas areias
do mundo dos homens.
Pés encardidos nas caminhadas,
viajantes no fazer o bem.
Pés do Pastor
feridos por espinhos e pedras
nas encostas,
nos vales,
procurando ovelhas perdidas
de Israel.
Pés lavados no Jordão
e no mar da Galiléia,
santificando as águas.
Pés ligeiros
no visitar amigos,
curar enfermos,
consolar aflitos.
Pés galgando montes
para vigílias de preces.
Pés de gigante,
devorados pelo zelo
da casa do Pai,
contidos diante do cinismo
dos fariseus,
beijados pelas pecadoras,
perfumados pelo amor da Madalena.
Pés angustiados
atravessando o Cedron
a caminho do Horto,
sangrando
na trilha do Calvário.
Pés redentores,
partidos,
fixados na Cruz,
para que nossos pés fossem livres.
Cristo,
eloqüentes os teus pés
que, reverentes,
em gratidão beijamos!
+ Mauro Morelli - peregrino do Evangelho
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